domingo, 14 de outubro de 2012

“Estamos afetando negativamente a competitividade”

O que você está achando da política de economia do governo? O que você acha das 'concessões' feitas pelo governo? E o preço da gasolina praticado pela Petrobrás? E as intervenções nas elétricas? O Blog Poder Econômico, realizou uma entrevista com o economista Pedro Cavalcanti Ferreira, que deu seu ponto de vista sobre a política econômica do governo federal. Vale a pena ler essa entrevista.

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fonte: http://colunistas.ig.com.br/poder-economico/2012/10/14/estamos-afetando-negativamente-a-competitividade/


Quando divulgou o relatório trimestral de inflação, há duas semanas, o diretor do Banco Central, Carlos Hamilton Vasconcelos, fez um pedido para o país debater a questão da produtividade e citou o nome do economista Pedro Cavalcanti Ferreira, professor da Fundação Getúlio Vargas (RJ), como referência no assunto. O governo, agora, ensaia uma discussão – e a adoção de medidas – para melhorar a competitividade do país. Mas Ferreira, que estuda o tema há anos, vê todo esse esforço com ceticismo. “Estamos afetando negativamente a competitividade”, afirma. Nesta entrevista ao Poder Econômico, ele avalia que um dos principais motivos para o discurso caminhar para um lado e a prática para o outro é a “excessiva intervenção” do governo na economia. Cita como exemplos o regime automotivo, a política de preço da gasolina e o aumento do imposto de importação de 200 produtos.
Poder Econômico - Por que o Brasil não consegue aumentar a produtividade?
Pedro Cavalcanti Ferreira – Essa é a resposta de bilhões de dólares. Vamos lá. A forma mais simples de explicar é que a produtividade depende tanto de tecnologia, inovação, educação quanto de instituições e normas do país. Se você tem alguns desses itens, os primeiros, mas tem um ambiente de negócios que não incentiva o empreendedorismo, a adoção de tecnologia, o investimento, fica para trás em termos de produtividade. A questão no Brasil tem a ver com essas novas instituições criadas de quatro a cinco anos para cá. De forma clara, há uma volta ao intervencionismo exagerado dos anos 1970, um mercado excessivamente regulado que prejudica o ambiente de negócios. Esse panorama desestimula o aumento da produtividade ou porque o setor está muito protegido e não precisa investir ou porque está consciente de que terá vantagens legais.
Poder Econômico - Há uma acomodação.
Pedro Cavalcanti Ferreira – Exato. São financiamentos subsidiados, vantagens a produção doméstica, política industrial sem metas claras de produção. Se protege demais, onde fica o estímulo? É muito difícil investir porque não precisa, no caso das grandes indústrias. O exemplo clássico é a indústria automotiva. Enquanto as médias têm dificuldade de acesso ao crédito. Logo o acesso à pesquisa também é dificultado ou negligenciado. É bom dizer que houve uma mudança de rumo para essa situação. Até a metade do governo Lula, vínhamos bem, agora andamos para trás.
Poder Econômico – Ou seja, já fomos melhores na produtividade.
Pedro Cavalcanti Ferreira – Em Economia, olhamos a produtividade total dos fatores. É um conceito amplo. É a contribuição de todos os fatores na produção. Se olharmos só o trabalho e compararmos com os Estados Unidos, a produtividade do brasileiro é 25% do trabalhador americano. Alerta-se que isso não quer dizer que o brasileiro seja improdutivo, trabalhe menos ou pouco. Esse dado é resultado de uma fórmula, de um modelo, que leva em conta capital, trabalho. A análise é de medidas relativas. O Brasil já foi mais produtivo. Se eu der a mesma educação média, a mesma máquina e equipamento de um norte-americano para um trabalhador daqui, ele produz dois terços. Há uma ineficiência do sistema. Tem a ver com excesso de regulação, infraestrutura etc O brasileiro produz de um terço ou 40% menos. Dependendo do critério adotado pode chegar a 50%. A produtividade vinha aumentando. Nos anos 2000, diminuiu. De 2010 pra cá, piorou. Temos piorado em relação aos outros países líderes.
Poder Econômico - Pioramos em setores específicos?
Pedro Cavalcanti Ferreira – Sim. Quando a intervenção ocorre de forma excessiva, mexe com toda a cadeia, todo o sistema. Por exemplo, quando o governo decide uma intervenção no preço da gasolina, para segurar o preço, como ocorre agora, não é apenas a Petrobras que tem seus resultados comprometidos, abalados. É a indústria do álcool também, são indústrias periféricas do setor, afeta tudo e reduz a produtividade geral da economia. Quando eu obrigo uma empresa a comprar 70% de produção nacional, é uma interferência no sistema.
Poder Econômico – A produtividade baixa começa a ser um entrave para reduzir ou controlar a inflação, como vê essa relação?
Pedro Cavalcanti Ferreira – Se você toma uma série de medidas e faz com que, com a mesma quantidade de fatores de produção estejamos produzindo menos, está ficando mais caro produzir cada unidade. A perspectiva futura, no longo prazo, as pessoas aprendem, mas no curto prazo, é cada vez mais restritiva. Se você, por exemplo, aumenta o imposto de importação de 200 produtos, muito básicos, aumentará o custo. No médio prazo, a tendência é de alta do preço. O consumidor vai pagar mais por um produto pior. Sou pessimista em relação à inflação a curto prazo.
Poder Econômico – O governo começa a priorizar uma agenda de competitividade, como analisa esse desafio?
Pedro Cavalcanti Ferreira – A gente não sabe o que vai acontecer. Essas pessoas que estão no governo diziam que a gente ia crescer muito com taxa de juros baixa, câmbio alto e estamos nesse mundo ideal. No entanto, o país não está crescendo. Por quê? Estamos afetando negativamente a competitividade. Se tudo ocorrer como o que o governo diz na infraestrutura, o que é pouco provável, talvez. Mas investimentos 2% do PIB em infraestrutura, enquanto a China investe 6%, o Chile, 4%, o Peru 4%. O Peru está crescendo porque liberou a economia. Veja não é uma defesa do liberou geral, sem regulação, é mais liberdade. O Peru tinha uma economia muito controlada, provocava grandes distorções. Bastou liberar um pouco. Reduzir a intervenção exagerada. Quando você tem uma economia muito controlada, alguma liberdade já faz alguma diferença em termos de crescimento. Basta comparar a China dos anos 1980 com a de hoje.
Poder Econômico – À luz dos dados da Pnad, sobretudo quanto ao fator trabalho, renda do trabalho, podemos ter alguma esperança de melhora na produtividade?
Pedro Cavalcanti Ferreira – Há sempre uma contradição nos dados da Pnad e do PIB. É bom ter isso claro. Mas a Pnad mostrou um aumento de renda pessoal grande na última década. Os muito pobres melhoraram bastante a renda, o que é muito positivo. Estamos vendo um aumento pequeno da renda dos mais ricos, uma redução histórica da desigualdade. De fato a produtividade na Pnad é maior do que o crescimento do PIB. Houve um grande investimento em educação, devido ao aumento da renda e de políticas de transferência de renda. Em tese, um país com menos desigualdade, com mais educação, sobretudo, vai produzir melhor. Você melhorou um importante critério da produtividade: educação. Mas é bom lembrar que há países com bom nível de educação, como a Argentina, com pouca eficiência. A Argentina resolveu há tempos os problemas educacionais que o Brasil tem. Mas os ganhos são muito menores. O país já foi um dos 10 mais ricos, já foi 60% dos Estados Unidos em renda relativa, hoje é menos de 30%. A economia da Argentina se desorganizou. O Chile, por outro lado, otimizou e cresce mais. Fez reformas liberais. De novo, não é um superliberal. É menos intervenção.
Poder Econômico – Por parte do governo, há uma preocupação genuína com esse tema? Quem está dedicado ao estudo da produtividade na academia é ouvido pelos gestores públicos?
Pedro Cavalcanti Ferreira – Sim e não. O governo não é homogêneo. Quem está realmente determinando a política econômica tem uma visão diferente sobre esses temas, claro. Essas pessoas acreditam que a demanda é que vai determinar tudo. Se reduzir os juros e ampliar a demanda, vende mais, produz mais e gera investimento e melhora a produtividade. Essa é a visão. Mas se for preciso elevar o grau de distorção da economia para se chegar a isso, não vai ter investimento. Não haverá investimento em um ambiente de negócios instável e regulado exageradamente, a ponto de comprometer a concorrência. Eu fui chamado pelo Banco Central, no seminário sobre metas, duas vezes. Mas o diagnóstico do governo é diferente. Estamos em posição marginal nisso.


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